OpiniãoNo dia 12 de Janeiro de 2016 (terça-feira) estreou a série Shadowhunters. Foi uma segunda oportunidade para os fãs de Cassandra Clare depois do filme Cidade dos Ossos de 2013 que, infelizmente - ou não - não fez o dinheiro necessário para possibilitar uma conclusão, embora os altos/conhecidos nomes do público e do cinema desde Lily Collins, Jamie Campbell Bower, Lena Headley, Jonathan Rhys Meyer, Kevin Zegers, Jared Harris, Aidan Turner, entre outros. No entanto, para surpresa de muitos, as Crónicas dos Caçadores de Sombras que, neste momento inclui The Mortal Instruments, The Infernal Devices e The Dark Artifices ao contrário de muitas outras séries YA, tiveram uma segunda hipótese.

(Continua)
Antes de mais, o responsável pelo marketing foi um génio. Desde as redes sociais, nomeadamente o Twitter, à criação de uma aplicação "Join The Hunt", cinco meses antes da estreia, fomos bombardeados com um conjunto de novidades, desde os actores, a maioria, desconhecida, fotos promocionais, vídeos dos treinos para desempenharem o papel, vídeos de momentos divertidos, Q&A com os diferentes actores sobre as suas preferências pelos os livros ou sobre as suas personagens. O Twitter foi e continua a ser a rede social mais utilizada com Livechattings semanais que possibilitaram uma interacção directa com os fãs de todo o mundo. 
Shadowhunters, ao contrário dos livros e ao contrário do que aconteceu com o filme, que muitas pessoas ainda têm em mente, apresenta uma maior diversidade e, durante algum tempo, esse foi um dos temas mais abordados, principalmente aquando a apresentação dos actores e respectiva personagem. Para os mais familiarizados com as histórias de Cassandra Clare há, efectivamente uma grande diversidade não só ao nível da raça, como da religião, como da sexualidade, pelo que, quando a apresentação houve controvérsia quanto à aparência Luke e há componente latina de Isabelle. 
Admito que não foi algo que me incomodou por aí além, embora diferisse da imagem que criei para cada um dos personagens. Mas, para ser justa, nem mesmo Kat ou Dom se parecem minimamente com o que idealizei. No entanto, houveram mudanças que não foram do gosto de grande parte dos fãs, meus incluídos. Em primeiro lugar, a idade e linha temporal: Clary e Simon têm agora 18 anos de idade, e Clary quer entrar para uma escola de artes e Simon está a tirar o curso de contabilidade; Luke, ao invés de ser dono de uma livraria, faz parte da polícia de Nova Iorque (NYPD), Madame Dorothea não existe, sendo substituída por Dot, a dona de uma loja de antiguidades e uma das grandes amigas da protagonista e Maureen é agora uma jovem da idade de Simon, que pertence à sua banda (são apenas os dois) e cuja importância esmorece ao longo dos episódios apesar de inicialmente ser muito presente. São mudanças que não influenciam necessariamente a história, contudo, criam um distanciamento que não era realmente necessário. 
O porquê destas mudanças? Provavelmente para tornar a série mais apelativa a pessoas que não leram os livros? Para possibilitar momentos mais sensuais, ou pelo menos tentar? Não sei realmente a resposta mas, seja qual for, cada uma destas mudanças não foi de todo necessária porque, por exemplo, embora haja algo nas ruas chamado de "o assassino demoníaco" em nada influencia a história principal, é só outra plot line em muitas que desencaminham a história em si, outro exemplo, como referi, é Maureen que apesar da suposta amizade com Simon e Clary, serviu apenas como objecto sexual para o primeiro. 
Shadowhunters é, e igual medida, uma série de fantasia e que, portanto, incorpora, vários tipos de mitologias, dentro das quais, fadas, vampiros, lobisomens, feiticeiros e demónios e, como tal, foi obrigatório utilizar efeitos especiais que, sendo uma primeira temporada, é normal serem quase ridiculamente infantis, para além de certas cenas de acção, onde é óbvio o uso de cabos ou outras plataformas de sustentação. No entanto, houve uma melhoria ao longo dos episódio e, embora continuem a ser ligeiramente precários ao estilo das primeiras temporadas de Buffy, a Caçadora de Vampiros, nota-se um avanço no uso da tecnologia, quase como se os primeiros episódios fossem de teste e, devo acrescentar que o facto de não se terem afastado da imagem dos Irmãos Silenciosos criada pelo filme foi um plus. 
Contudo, algo que houve, mais do que nunca, nos primeiros episódios foi, sem sombra para dúvida, o uso excessivo de clichês porque, embora no livro exista efectivamente alguns pontos comuns noutros livros do mesmo género, Cassandra Clare afasta-se dos diálogos habituais com um excesso de sarcasmo e ironia que falta na série. Este sarcasmo e ironia são metaforizados principalmente em Jace Wayland e Simon Lewis mas, na série, apenas Alberto Rosende encarna na perfeição, Simon. Dom não dá os diálogos no timing correcto, não dá uma conotação de ironia, é demasiado sério, demasiado correcto e, não ajuda as cenas nos primeiros episódios serem dolorosamente ridículas de ver e, muitas das vezes, é quase como se os responsáveis pela série, achassem os espectadores estúpidos. 
Há uma enorme falta de sentido nos primeiros episódios: o uso da peruca de Isabelle que para nada serviu, a forma como as runas eram colocadas, ora desenhadas, ora passadas a ferro, o facto de Valentine estar em Chernobyll (onde está a explicação?), a forma como Magnus é poderoso o suficiente para criar portais para mil feiticeiros e é capaz de transportar um edifício de lugar, mas fica fraco com uma facilidade tremenda para curar Luke, ou depois já nos é dito que Magnus apenas consegue criar portais para locais onde já foi, o que não faz o mínimo sentido de acordo com as regras criadas, já que qualquer pessoas pode atravessar um portal desde que visualize o local para onde vai (como vemos em Princesa Mecânica), Clary é capaz de criar um pentagrama quase ao estilo do vaticano quase cinco minutos depois da sua entrada no mundo das sombras ou o facto de Jace precisar de uma transfusão sanguínea (tipo O) para curar uma mordida de demónio, entre outros, na verdade são vários os exemplos. 
As Crónicas dos Caçadores de Sombras têm um grupo muito eclético de personagens e, confesso, estava curiosa por ver como é que cada um dos actores iria encarnar as personagens que adoro e, admito que, nos primeiros episódios ficaram aquém, como já disse, muito por culpa dos diálogos e do próprio sentido da história. No entanto, é impossível negar as diferenças que os escritores de Shadowhunters decidiram que faziam sentido para a série e que no fim, acabaram por mudar o coração, a essência, de alguns dos personagens. 
Um dos maiores exemplos para mim, é Isabelle, uma das minhas personagens favoritas que, na série, não sabe dos problemas dos pais, que é basicamente uma menina do papá e que, embora haja uma elevada sensualização da sua personagem, mantém apenas uma relação, não há sequer menção a outros homens, não há menção sequer há protecção dos seus sentimentos, havendo uma entrega demasiado intensa a Meliorn e não como a relação apatetada que há em A Cidade das Cinzas. 
Noutro sentido, Jace, como já disse, perdeu a sua chama na série e, não há o flirt com outras raparigas, não há a auto-indulgência própria do personagem, não há nada. Por outro lado, exageraram na personagem de Alec, mantendo-o não só um personagem fechado como alguém rígido, o que ele é no livro, verdade, mas não ao ponto de dizer que "Jace, para mim está morto" porque saiu com Clary e desafiou as ordens da Clave. Alec nunca, em tempo algum, se afastaria dos irmãos pela Clave. Alec nunca, em tempo algum seria capaz ou teria a confiança de pedir uma mulher em casamento para salvar o nome da família. É óbvio o caminho de redenção que Alec toma mas, mais uma vez, não era necessário, não proporcionou o choque devido porque na série a ligação entre Alec e Jace é quase nula nos primeiros episódios, e os próprios actos "parabatai" são estranhos e é preciso um diálogo para compreendermos uma relação que devia ser mostrada por gestos. 
Para mim, um dos pontos fortes de Cassandra Clare sempre foi a facilidade com que me fez apaixonar pelos seus personagens e a facilidade com que me faz vibrar com as relações criadas entre eles. Na série, nada disso aconteceu, salvo a rara excepção de Alec e Magnus, embora, para quem tenha lido não só Os Instrumentos Mortais como As Crónicas de Bane, sabe que algumas das escolhas de palavras ou acções do Magnus-TV nunca seriam aceites ou sequer consideradas pelos Magnus-livro. Há aqui uma dicotomia e Magnus é o único personagem que consigo diferenciar na perfeição entre aquilo que me apresentam na série e aquilo que li no livro. Não há uma mistura entre os dois porque a diferença é demasiado grande. 
Nesta primeira temporada houve uma mistura entre A Cidade dos Ossos e A Cidade das Cinzas e não foi algo que me fez confusão. A condição de Simon foi, aliás, muito bem explorada ao longo de alguns episódios, embora, - há sempre um mas, - não saiba qual a diferença que vai provocar o facto de o senhor, o criador de Simon ser Camille e não Rafael. E aqui, posso dizer que Camille Belacourt foi, para mim, um dos melhores/piores castings. A actriz é, obviamente talentosa, no entanto, as características de Camille são intemporais, ela é uma das vampiras mais antigas e mais poderosas e isso não se viu, de modo nenhum, especialmente quando Clary é capaz de dar um murro em Camille e virar as costas o que, no livro, iria apenas resultar na sua morte prematura. Não senti que houvesse sequer uma ameaça por parte da vampira e, mais uma vez, algumas das suas cenas com Simon foram apenas de carácter sexual, algo que não gostei porque, como Isabelle, Simon tem uma actividade sexual anormal para o seu personagem e para os seus próprios morais, de acordo com o livro. Mas, enfim. Audiências.
Quando anunciaram a série confesso que fiquei primeiro feliz, e depois ligeiramente ansiosa sem saber muito bem o caminho que iam seguir mas entusiasmada com as possibilidades. Seria que, pela primeira vez, iríamos ver o background de O Círculo? Um pouco o que não aconteceu em Harry Potter, com James, Sirius, Peter e Remus. Seria esta a oportunidade? 
Foi. Mas, não como esperava. Primeiro que tudo, o episódio destinado aos flashbacks foi mau, muito mau. Nem me refiro à própria cinematografia que, aparentemente tem apenas um lugar, mas à própria história que foi contada previamente. Luke e Jocelyn estão na série, abertamente apaixonados e, claro, foi essa a traição a Valentine. Não houve uma insurreição, não houve a união com os Habitantes-do-Mundo-à-Parte. Isto para não falar que Jocelyn estava grávida de Valentine, tendo um caso com Luke. Sentido? Nenhum. E claro, nunca em tempo algum pareceu que Jocelyn estivesse à espera de ir ter com um segundo filho. 
Outro defeito à série e, para mim, um dos maiores problemas, é a falta de tacto nos momentos chaves. Não há emoção. Zero. Nien. Quando Clary descobriu que tinha um irmão, foi quase como se Luke lhe tivesse contado que comeu panquecas estragadas ao pequeno-almoço. O mesmo se passou com a revelação de Valentine em relação a Clary e Jace. Desde o início da série que há o motto de que as emoções deturpam o raciocínio e a lógica mas, pelo amor dos céus, até o Keep Up with the Kardashians tem mais emoção. 
No seguimento de tudo o que já disse, a série tem insistido em misturar nomes conhecidos de outros livros das Crónicas dos Caçadores de Sombra como Ragnor Fell, Catarina Loss e, Tessa Gray. Incomoda-me? Bastante. A ideia de Jem, Will ou até mesmo Tessa, de quem temos um vislumbre no episódio "Malec" deixa-me mal-disposta. Por qualquer motivo, enquanto não melhorarem os diálogos, os efeitos, o próprio desenvolvimento da história, não gostaria de os ver metidos ao barulho. Mas, a breve menção ao seu nome podia até provocar uma sensação de alegria ou nostalgia que me prendesse à série. Isso podia ter acontecido se fosse bem feito. Um dos exemplos é o aparecimento do personagem de Lydia Brandwell que basicamente apareceu apenas para se colocar no meio de Alec e Magnus, o que não sou fã, de todo. Gosto quando as personagens têm um propósito mais sólido do que servir de mera parede entre um romance. 
Lydia apareceu com o sobrenome Brandwell o que por si só podia ser aceitável. Não sabemos se Henry tinha outros familiares, mas Lydia refere que está ansiosa por conhecer Magnus, uma vez que o seu antepassado Henry, criou os portais com o feiticeiro. Bem, em As Origens, os filhos de Charlotte recebem o seu nome, Fairchild, que seria posteriormente passados até Clary. Lógica? Nenhuma. O facto de Charlotte ser capaz de dar o seu nome e de Henry o aceitar é algo louvável, que define muito a relação entre os dois e que a série simplesmente ignorou. 
Ao contrário do que acontece nos livros, o grupo constituído por Clary, Simon, Jace, Isabelle e Alec, movem-se com demasiada facilidade pelo mundo, sem qualquer tipo de autoridade. Nos livros, Hodge é que detém esse poder mas, na adaptação, o tutor é quase colocado de parte, com acções mínimas, desaparecendo durante uns quantos episódios, desvanecendo-se face à presença de Robert e Maryse, ou desaparecendo face à presença de mil outras pessoas no Instituto, visto que a tecnologia é algo aparentemente necessário à caça dos demónios e à segurança dos humanos. Hodge, um personagem que devia ter uma maior presença face a acontecimentos futuros. 
Claro que, sendo uma série e não se satisfazendo com as mudanças já criadas, houve a inserção de Michael Wayland enquanto figura. No entanto, o seu aparecimento criou um buraco nas regras do mundo mas, principalmente, na história que a própria série quer vender, por assim dizer. Não houve qualquer tipo de explicação para o facto de Jace ver Michael Wayland como Michael Wayland e depois Valentine como duas pessoas separadas sem explicação aparente, quase como se quisessem seguir a linha de pensamento do filme homónimo. Foi explicado? Sim. Com uma runa. Mas o poder da runa é uma das características próprias de Tessa, intransponível a outros Caçadores de Sombras. Tessa é um caso único. A invenção desta nova runa, cria todo um núcleo de incertezas e, embora houvesse a possibilidade de criar o facto UAU, não o fez porque aposto que cada uma das pessoas que leu o livro, ao ver o personagem de Michael Wayland relembrou a entrada de Lydia no Instituto. 
A série adopta também o seu quê de dramatismo. Os discursos pomposos à frente de uma dezena de pessoas, demonstrações de afecto à frente de outra dezenas de pessoas parecem ser uma constante e, embora sejam discordantes com as acções dos personagens, confesso que foram alguns dos momentos altos dos episódios. O que no fundo, acaba por não ser muito quando comparado com a imagem geral. 
Na verdade, tudo o que eu queria era uma adaptação minimamente fiel mas as semelhanças desvanecem-se na quantidade de diferenças e mesmo os diálogos, alguns dos quais retirados dos próprios livros, quando aparecem são mal entregues ou descontextualizados. Um dos maiores exemplos que posso dar é a história do falcão que centraliza uma ideia fulcral em Os Instrumentos Mortais: amar é destruir e ser-se amado é ser-se destruído. Parte que, infelizmente, não foi captada. 
Penso que nos primeiros episódios houve demasiada quantidade de informação que foi lançada para cima dos espectadores e que por isso a série não adquiriu um ritmo mais "natural" menos "apressado" mais cedo. Nos primeiros episódios havia demasiadas pessoas, demasiada informação nova, demasiados locais, e demasiadas flutuações de humor de demasiados personagens. Penso igualmente que com a quantidade explosiva de marketing, as pessoas esperavam inicialmente algo melhor, mais grandioso, mais digno dos livros. 
A autora, mais do que uma vez, referiu que não tinha poder absolutamente nenhum sobre a série mas que também não iria mencionar o seu conteúdo e, mais do que uma vez, dou por mim em absoluto espanto. Não percebo como é que os criadores do universo e das regras de um determinado livro, podem ser banidos do projecto cinematográfico ou televisivo, não lhes sendo dada a oportunidade de refutar diálogos ou cenas que não fariam parte das pessoas que criaram na sua mente. É verdade que também assinaram contratos e receberam por isso mas, considerando a quantidade massiva de fãs, seria de esperar que os directores e produtores já tivessem aprendido.
Infelizmente, ao contrário do que seria de supor, a série não terminou em grande. O choque que devia existir manteve-se à margem e, os acontecimentos decorreram de tal modo mecanizados, que nenhuma das descobertas, das traições ou do desenrolar da história pareceu emocionante. Apesar de dar os meus parabéns a Kat Mcnamara aka Clary por ser capaz de transmitir a maior parte da emoção do último episódio, não foi um bom fim, não me deixou na expectativa, pelo contrário, se me deixou algo foi incrivelmente frustrada, pelas diferenças e pelo non-sente. 
A verdade é que, para minha surpresa, admito, a série foi renovada para uma segunda temporada. Não sei bem o que esperar mas irei manter a fé de que alguma coisa boa irá sair dali. Os episódios melhoraram é verdade e, embora por vezes a história tenha mais buracos de que um queijo suíço, consigo ver o potencial, ou talvez seja apenas a minha enorme vontade de continuar a ter material do universo das Crónicas dos Caçadores de Sombra. Teremos de esperar para ver.

All the legends are true.


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