| Cinema | O Jogo da Imitação

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015



Opinião: Alan Turing não é, como tantos outros, um herói de guerra reconhecido e a sua história permaneceu oculta durante cinquenta anos. O foco do filme não é a guerra, pelo que as cenas de atentados são poucas e minimamente realistas. O foco do filme é sim a Enigma, uma máquina encriptada alemã que, caso descodificada, poderia dar, entre outros, as posições dos submarinos e navios de guerra alemães que, durante o período de 1939 a 1945 destruíram e provocaram a morte a dezenas de milhares de pessoas, incluindo de modo indireto, com a destruição de barcos de carga com alimentos. 

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Baseado em factos verídicos, o filme começa com uma remanescência a um passado longínquo em 1928, apresentando um Alan introvertido e cuja infância foi marcada pela violência dos colegas de escola pelo facto de ser diferente o que o permitiu chegar à conclusão que viria a alentá-lo anos mais tarde de que a violência só dura enquanto a vítima se debate, porque ver a sua reação sabe bem. É aqui, num passado posterior e anterior à guerra que nos é apresentado Christopher, e aquela que podia passar por uma amizade, reflete-se no primeiro amor e na primeira evidência da orientação sexual de Alan. 
Como era de esperar, Benedict Cumberbach é incrivelmente verossímel no papel de um homem egocêntrico, arrogante com graves problemas ao nível do relacionamento. Uma das partes mais "divertidas" é ver Alan a procurar colmatar a sua incapacidade social com os colegas de trabalho, orientado e incentivado pela personagem interpretada por Kiera Knigthtley, Joan Clarke.A relação que se estabeleceu entre os dois é incrivelmente comovente e enternecedora, baseada numa amizade pura. São duas mentes brilhantes que se completam. Uma relação baseada no intelecto. 
Um apaixonado (obcecado) pelo seu trabalho e pelos puzzles e enigmas do dia-a-dia Alan e a sua equipa conseguiram quebrar o código da Enigma com a máquina construída e pensada por Alan, chamada Christopher. Foi com a descodificação da Enigma que os Aliados conseguiram vencer a guerra, antecipando os ataques alemães - incluindo o famoso Dia D. E, apesar da racionalidade e arrogância que Benedict Cumberbach mantém incólume até ao fim, em nenhum momento somos capazes de deixar de simpatizar com a personagem criada e, por isso, o fim do filme, anos após o final da guerra (1959) é nada menos do que chocante para aqueles que, como eu, desconheciam a existência deste homem brilhante porque Alan Turing  cometeu o crime de ser homossexual e, por isso, foi-lhe dado a escolher entre dois anos de prisão ou castração química. Para poder continuar o seu trabalho, Alan escolheu a segunda opção. Suicidando-se anos depois. Alan Turing cujo trabalho permitiu encurtar a guerra em 2 anos e que estima-se que salvou mais de 24 milhões de pessoas.
No fim é-nos dado a saber que, em 2013, a Rainha Isabel II concedeu-lhe perdão.
Fica a questão: porque é que ele tinha de ser perdoado se não cometeu nenhum crime? 
Recomendo vivamente. 

Sometimes it is the people no one imagines anything of who do the things that no one can imagine.


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